Em uma crise de ansiedade, a conduta mais útil costuma ser simples: procurar um lugar seguro e com menos estímulos, desacelerar a respiração deixando a expiração mais longa que a inspiração, apoiar os pés no chão e ancorar a atenção em algo concreto do ambiente, esperando a onda baixar sem brigar com ela. Por mais assustador que o episódio seja, ele em geral atinge um pico e vai cedendo. Se houver dor forte no peito, falta de ar intensa, desmaio ou se este for o primeiro episódio da vida, o quadro precisa de avaliação médica.
O que acontece no corpo durante uma crise
A ansiedade é uma resposta normal do organismo diante de uma ameaça percebida. Em uma crise, esse sistema de alarme dispara com muita força e em pouco tempo, mesmo quando não existe perigo real por perto. O corpo se prepara para reagir: o coração acelera, a respiração fica rápida e curta, os músculos se contraem e o sangue é redirecionado para as grandes massas musculares. Muitos dos sintomas assustadores da crise são justamente o efeito colateral dessa preparação.
Entre as sensações mais relatadas estão:
- coração acelerado ou batendo forte;
- falta de ar, aperto no peito ou sensação de sufocamento;
- tremores, calafrios ou ondas de calor;
- formigamento nas mãos, nos pés ou ao redor da boca;
- tontura, pernas bambas e sensação de irrealidade;
- medo intenso de perder o controle, enlouquecer ou morrer.
Reconhecer esses sinais como parte de um alarme falso, e não como sinal de que algo terrível está acontecendo naquele instante, já costuma diminuir o pânico secundário, ou seja, o medo do próprio medo.
Passo a passo para atravessar a crise
- Reduza os estímulos. Se possível, saia de ambientes muito cheios, barulhentos ou quentes. Sentar-se em um lugar mais calmo, com a coluna apoiada, já ajuda.
- Nomeie o que está acontecendo. Dizer para si mesmo, em voz baixa ou mentalmente, algo como "isto é uma crise de ansiedade, é desconfortável e vai passar" muda a leitura que o cérebro faz da situação.
- Desacelere a respiração. Não force o ar para dentro. O objetivo é soltar o ar devagar, por mais tempo do que levou para inspirar.
- Ancore-se no presente. Toque uma superfície fria, sinta os pés no chão, olhe ao redor e descreva objetos.
- Solte a musculatura. Ombros, mandíbula e mãos costumam estar travados. Relaxar de forma consciente essas regiões dá ao corpo um sinal de que o perigo passou.
- Não fuja imediatamente. Sempre que possível, espere a intensidade cair antes de sair correndo do lugar. Fugir alivia na hora, mas costuma ensinar ao cérebro que aquele contexto era realmente perigoso.
Respiração e ancoragem: duas ferramentas simples
Na crise, a respiração fica rápida e superficial, o que pode intensificar tontura e formigamento. Reequilibrar esse ritmo é uma das medidas mais acessíveis:
- inspire pelo nariz de forma tranquila, sem encher o peito ao máximo;
- solte o ar pela boca lentamente, como se estivesse assoprando uma vela sem apagá-la;
- deixe a expiração mais longa que a inspiração e repita por alguns minutos;
- coloque uma das mãos sobre o abdome para perceber o movimento e manter o foco.
A ancoragem pelos sentidos funciona junto com a respiração. Um exercício bastante usado consiste em identificar cinco coisas que você vê, quatro que pode tocar, três que consegue ouvir, duas que consegue cheirar e uma que consegue sentir o gosto. Esse tipo de exercício não faz a ansiedade desaparecer por mágica, mas ocupa a atenção com informação concreta do presente e ajuda a interromper o ciclo de pensamentos catastróficos.
Como ajudar alguém que está em crise
Quem acompanha a pessoa tem um papel importante, e ele é mais de presença do que de solução. Algumas atitudes que costumam ajudar:
- manter a voz calma e falar frases curtas;
- perguntar do que a pessoa precisa, em vez de decidir por ela;
- oferecer água, um lugar para sentar e um ambiente mais silencioso;
- respirar junto, servindo de referência de ritmo;
- lembrar, sem pressa, que a sensação é desagradável mas passageira.
Frases como "calma", "isso é bobagem" ou "não tem motivo para você estar assim" tendem a aumentar a sensação de solidão e vergonha. Julgar não acalma ninguém.
Quando procurar um médico
Nem todo sintoma parecido com ansiedade tem origem emocional. Problemas cardíacos, respiratórios, hormonais, efeitos de medicamentos e outras condições clínicas podem provocar sensações semelhantes, por isso a avaliação profissional é importante. Procure atendimento médico, com atenção especial ao serviço de emergência, quando houver:
- dor no peito intensa, em aperto, que irradia para braço, mandíbula ou costas;
- falta de ar que não melhora ou que surge em repouso;
- desmaio, confusão mental ou fraqueza de um lado do corpo;
- batimentos muito irregulares ou que não voltam ao normal;
- primeiro episódio do tipo, principalmente após os 40 anos ou em quem tem doença crônica;
- crises frequentes, medo constante de que elas voltem ou afastamento de atividades por causa desse medo;
- pensamentos de morte ou de se machucar, situação em que a ajuda deve ser buscada de imediato.
No Brasil, o SAMU atende pelo 192 e o Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo 188, 24 horas por dia.
O que costuma reduzir a frequência das crises
O manejo do episódio agudo é só uma parte do cuidado. A médio prazo, estudos sugerem que hábitos consistentes fazem diferença no funcionamento do sistema de alerta:
- sono regular, com horários parecidos todos os dias;
- atividade física frequente, mesmo que leve;
- redução de cafeína, energéticos, álcool e nicotina;
- psicoterapia, que é considerada uma das abordagens centrais para transtornos de ansiedade;
- avaliação médica para discutir a necessidade de tratamento medicamentoso, quando indicado.
Automedicar-se, principalmente com calmantes de outra pessoa, não é uma boa saída: além do risco de dependência e de efeitos adversos, pode mascarar um problema que precisa ser investigado.
Escolha hoje, fora da crise, dois recursos simples para ter à mão: um exercício de respiração com expiração longa e um exercício de ancoragem pelos sentidos. Treine os dois em momentos calmos, para que fiquem disponíveis quando você mais precisar, e leve o relato dos episódios a um profissional de saúde para avaliação adequada.


